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sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Japoneses no exterior

数日前(すうじつまえ)- alguns dias atrás -, li um artigo bem interessante intitulado 『海外で日本人だとバレる行動』, e hoje decidi comentá-lo.

Claro, em primeiro lugar precisamos dizer o que o título diz, correto? Então vamos lá:

海外』 é parecido com 『外国』; o kanji comum, 『』, possui sentido de "fora, externo", e pode ser lido como 『そと』 e 『がい』, que é o caso aqui. Já 『』 é o velho conhecido 『うみ』, "mar", e 『』, 『くに』, simboliza "país". Ou seja, 『海外』 é uma outra maneira de se referir ao exterior.

Mas o mais interessante aqui é o verbo 『バレる』. A primeira pergunta é: por que metade katakana e metade hiragana? Por mais estranho que isso possa parecer, é bastante comum; indica que o verbo (ou adjetivo) em questão não é, digamos, padrão. Não sei exatamente como ou quando o verbo 『バレる』 surgiu, mas acredito que seja alguma gíria que acabou se firmando com o tempo.

Ah, o significado é mais ou menos assim: quando qualquer fato acaba sendo revelado sem querer, podemos dizer 『バレた』. Aqui, o que "baretou" (desculpem-me!) foi o 『行動・こうどう』, que é "ação, comportamento".

Assim, o título seria algo como "Comportamentos no exterior que entregam os japoneses", ou seja, quais atitudes dos 日本人 em terras estrangeiras acabam revelando suas nacionalidades.

A pesquisa foi feita com japoneses que já foram parados na rua com a pergunta 『日本人ですか?』("Você é japonês?") sem terem aberto a boca, e em qual situação foi.

A primeira resposta citada é:


『横断歩道(おうだんほどう)の信号(しんごう)(ま)ちの時(とき)で、青(あお)信号になるのを待っている時です』

"Na faixa de pedestre, quando estou esperando o semáforo ficar verde."


Quem já esteve no Japão sabe que isso é bem verdadeiro! Até mesmo em grandes centros comerciais em horários de pico, como Shibuya às 9 da manhã, é comum ver multidões em ambos os lados das ruas, pacientemente esperando pela luzinha do homem verde acender. Não que não exista quem faça 信号無視・しんごうむし (ato de ignorar o semáforo), mas são exceções, e não regra, como aqui.

Outra resposta interessante:


『タクシーを拾(ひろ)ったあとで、後(うしろ)ドアが開(あ)くのを待(ま)ってました。』

"Quando fiquei esperando a porta de trás do táxi abrir."


Pois é, até mesmo andar de táxi se torna uma experiência interessante no 日本. Talvez não pra eles, mas sim para nós que somos forçados a suportar o comportamento brutal e primitivo dos Shreks que nos conduzem por aqui.

Por lá, os 運転手・うんてんしゅ (motoristas) usam luvinha branca, perguntam o destino com educação, sabem contar os centavos de troco e ainda por cima abrem a porta do carro para a entrada e saída do passageiro, pressionando um botão no painel.

Próxima resposta:


『暑(あつ)くて喉(のど)が渇(かわ)いたモノですから、飲(の)み物(もの)を買(か)おうと、『自動販売機(じどうはんばいき)』を探(さが)してウロウロ・・・。(^^;)』

"No calor, fiquei com sede e perambulei atrás de uma 'vending machine' para comprar uma bebida."


...é. As famosas maquininhas de bebidas (não só de bebidas, mas é o tipo mais comum) fazem parte da cultura japonesa e devem ser um dos itens totalmente indispensáveis para a maioria da população. E não é por menos: poder comprar uma imensa variedade de bebidas - alcoólicas ou não - praticamente pelo mesmo preço de um supermercado e em qualquer esquina da cidade é um privilégio. Um privilégio que eu duvido, mas duvido mesmo, que algum dia o Brasil irá conhecer.

Ah, 『ウロウロする』 também pode ser considerado um verbo; expressa o ato de andar de lá pra cá, meio perdido.

Por último, o relato sobre um japonês no metrô de Nova York:


『車内(しゃない)が混雑(こんざつ)していたので、降(お)りるときにドア付近(ふきん)にいる人(ひと)を無言(むごん)で押(お)しのけようとしたら、「Excuse me!?」と強(つよ)くにらまれました。

"Para sair do trem, que estava uma confusão, tentei empurrar uma pessoa perto da porta sem dizer nada, mas esta me jogou um olhar feio, dizendo 'Excuse me?!'"


Isso é bem curioso: os japoneses são mundialmente famosos pela educação em público, mas não é considerado desrespeitoso sair dos trens empurrando todo mundo sem dizer um "a", o que difere dos padrões novaiorquinos.

...pelo menos é o que diz o artigo, pois eu mesmo 行(い)ったことない - nunca estive em NYC.

O verbo 『にらむ』 corresponde a "olhar feio", geralmente foi raiva!

Até alguns anos atrás, acho que o meio mais fácil de identificar um japonês era a câmera fotográfica sofisticada no pescoço, mas hoje, com o barateamento das デジカメ aliado ao crescimento econômico chinês, isso deixou de ser infalível. Mas acredito que os relatos citados aqui descrevem peculiaridades japonesas que vão continuar sendo únicas por mais um bom tempo!

Quem quiser ler o artigo na íntegra, clique aqui.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Fēsubukku

『__さんがあなたの近況についていいね!」と言っています。』

Parece algo complicado, mas tudo isso corresponde nada menos que à frase em português que mais de 800 milhões de pessoas hoje usam quase diariamente:

"Fulano curtiu seu status"

Pois é.

A palavra 『近況・きんきょう』 é composta pelo kanji de 『近い・ちかい』, "perto, próximo", e 『』 tem o sentido de "situação", como na palavra 『状況・じょうきょう』, o que faz sentido.

Já 『について』 significa "sobre, a respeito de" alguma coisa.

O Facebook ainda não conquistou totalmente o povo japonês, mas segundo a Wikipédia, já são mais de 10 milhões de ユーザー - usuários - cadastrados. Acredito que seja só questão de tempo para que desbanque o ミクシー (mixi), que eu, particularmente, nunca consegui usar.

Recentemente, troquei o idioma de português para 日本語 e percebi que muito pode ser aprendido com os termos e expressões utilizados dentro da 世界一(せかいいち)(ひろ)いソーシャルネットワーク - maior rede social do mundo. E algumas peculiaridades também; por exemplo: os japoneses dão muito valor ao tipo sanguíneo das pessoas; acreditam que diz muito a respeito da personalidade de cada um. E por esse motivo, no perfil, existe:


血液けつ』 é sangue; 『』 também, mas 血液 é mais técnico, digamos. 『』, como podemos deduzir, é "tipo" mesmo.

Não sei qual tipo sanguíneo tem - na visão deles - melhor relação com qual, mas já que tocamos nesse assunto de relacionamento, os status disponíveis são:


独身・どくしん

交際中・こうさいちゅう

婚約中・こんやくちゅう

既婚・きこん

複雑な関係・ふくざつなかんけい

オープンな関係

配偶者とし別・はいぐうしゃとしべつ

別居・べっきょ

離婚・りこん


É o mesmo que em português:


Tá, ignorem o "É complicado" ali; seria "Em uma relação complicada".

Ah, alguém pode perguntar: "'Casado' não seria 結婚けっこん?". Sim, mas 『既婚きこん』 diz respeito ao estado de estar casado, enquanto 『結婚』 diz respeito ao verbo de "se casar".

Cuidado, ainda, com a pronúncia de 『婚約こんやく』, que é diferente de 『こんにゃく』, aquela geléia cinzenta à base de batata:


Não há como comentar cada termo usado, mas alguns são importantes:

出身地・しゅっしんち』

出身校・しゅっしんこう』

Olhem como kanji é uma coisa interessante: 『』, "sair",『』, "corpo",『』, "local",『』, "escola". Portanto, os dois termos acima são, respectivamente, "local" e "escola de origem".

Ah, só mais duas palavras:


職歴・しょくれき』

学歴・がくれき』


』 aparece em 『履歴書・りれきしょ』, aquele troço que a maioria das pessoas - inclusive eu - tem preguiça mortal de elaborar: currículo. E sabendo que 『』 tem o sentido de trabalho e 『』 de estudo, é possível deduzir que estamos falando de "histórico profissional" e "acadêmico", respectivamente.

Não digo para todos trocarem o 言語・げんご - idioma - para nihongo, mas tenho certeza que alguma coisa ou outra pode ser aprendida com essa "aventura"!

じゃ!

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Neymar falando japonês

No começo desse mês, foi divulgado um vídeo do atacante Neymar pedindo apoio aos torcedores japoneses no Mundial de Clubes, que acontece em dezembro na terra do Sol nascente:



É bem simples e direto o que ele diz:


『こんにちは、私(わたし)の名前(なまえ)はネイマール。』

"Olá, meu nome é Neymar."


『サントスのフォワードです。』

"Sou atacante do Santos."


『12月(じゅうにがつ)、日本(にほん)に行(い)きます。』

"Em dezembro, vamos ao Japão."


『応援(おうえん)、よろしくお願(ねが)いします。』

"Conto com a apoio de vocês."


A pronúncia não está perfeita (e nem precisava estar), mas com certeza os japoneses adoraram ver um jogador brasileiro da importância do Neymar falando o idioma deles!

Eu, particularmente, sou fã de Lionel Messi, mas no provável confronto entre Santos e Barça na 決勝戦・けっしょうせん, final, pode ser que eu apoie o ネイマール e cia!






terça-feira, 16 de agosto de 2011

Lost in Translation - 『せっかく』

Ok, ok, outros 10 dias sem postar nada, mas cá estamos de volta.

Hoje, gostaria de falar a respeito de uma palavra específica, muito utilizada no dia-a-dia japonês.

Como todos sabem, há determinadas expressões em certos idiomas que, de tão peculiares, simplesmente não existem nos demais, ou não possuem uma tradução muito boa. É o caso do termo 『せっかく』:


『明日(あした)せっかく(やす)みですからもう少(すこ)し遅(おそ)くまで寝(ね)ます。』


Traduzindo, teríamos algo como:


"Já que amanhã é dia de folga, vou dormir até um pouco mais tarde."


Tudo bem, a tradução não está errada, mas também não está 100% correta! Pelo seguinte: 『せっかく』 corresponde a qual palavra, em português?

Pois é, nenhuma! Ou seja, poderíamos cortá-lo:


『明日は休みですから少し遅くまで寝ます。』


A tradução em si continua a mesma, mas a nuance é bem, mas bem diferente. Mas como assim, 『せっかく』 faz tanta diferença assim?

Sim. É um termo empregado para enfatizar o núcleo da frase; no caso, ressalta que "já que amanhã é um precioso dia de folga", a decisão é de dormir até mais tarde, e não simplesmente uma explicação.

Outro exemplo:


せっかくの高級(こうきゅう)ビールだからあの専用(せんよう)グラスで飲(の)もう。』

"Como é uma cerveja fina, vamos beber naquela taça especial."


Aqui foi adicionado 『』 por preceder um substantivo, a 高級ビール. Mais uma vez, o termo em questão poderia ser cortado sem alterar a tradução, mas a pessoa não estaria dando tanto valor à tal da cerveja fina.

Como podemos empregar algo equivalente em português? É difícil! Tanto é que, não raramente, dá vontade de dizer:


"せっかく você me convidou para a confraternização e não pude ir!"


わかりますか? Assim, estou aumentando meu sentimento de lamentação por não ter ido, o que em português, não raramente vira um termo chulo ou mesmo palavrão: ", você me convidou e...".

Existem vários termos assim, que em português não existem, mas que expressam com precisão aquilo que queremos dizer. Claro, no sentido inverso também existem alguns termos sim, embora eu não saiba dar exemplos nesse momento!

Para fixar, mais um exemplo:


せっかく2時間(じかん)も列(れつ)で待(ま)ちましたから、爆発(ばくはつ)するまで食(た)べましょう!』

"Já que esperamos duas horas na fila, vamos comer até explodir!"


オッケーですか?

じゃ!

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O que não fazer no Japão

みなさん、ごぶさたしております。

Faz tempo mesmo desde o último post, por isso àqueles que ainda me acompanham fielmente, peço desculpas pelo relaxo. É verdade que, nesse meio tempo, teve até 結婚式けっこんしき, casamento, do meu 兄・あに, irmão mais velho, mas só isso não justifica minha ausência!

Mas, para me redimir, concluí um post até interessante, sobre coisas que não devem ser feitas no 日本. Para quem se perguntou "Mas e quanto às coisas que devem ser feitas no 日本?", basta fazer uma busca pelo blog, mas num breve futuro, pois é um post que ainda não fiz!

Bom, vamos lá:


1. Não chegue atrasado a compromissos.

Se você marcou um encontro, pessoal ou profissional, faça de tudo para ser pontual. Diferentemente do Brasil, um compromisso às 16:00, por exemplo, começa às 16:00, e não às 16:15.


2. Não erre o nome das pessoas.

Errar ou confundir o nome dos outros é uma gafe que deve ser evitada em qualquer país ou cultura, mas especialmente no Japão, e mais especialmente ainda se tratando do sobrenome. Por quê? Porque lá, por lei, as pessoas podem ter apenas um sobrenome e um nome (salvo o caso de mestiços, que sinceramente não sei como funciona), o que os torna muito orgulhosos em relação a cada um.

Portanto, na dúvida, é até menos pior não chamar um 中田(なかた)さん pelo nome do que chamá-lo de 田中(たなか)さん.


3. Não fale alto em público.

Isso, para mim, deveria ser cultivado no mundo inteiro; é o princípio de que ninguém além do(s) seu(s) interlocutor(es) têm a ver com a sua conversa, portanto não precisam escutá-la. No Brasil, não são raras as situações que beiram o ridículo, com pessoas que berram pra que todos no recinto saibam de sua maravilhosa viagem a Paris (que muitas vezes foi parcelada em 10x pela CVC) ou do seu carro importado recém-comprado (em 80 parcelas).


4. Não fale ao celular em transportes públicos.

Tem a ver com o tópico acima, mas é mais específico: a norma japonesa diz que em trens, metrôs, ônibus etc. o celular pode ser usado para e-mail, SMS, navegar na internet, jogos (sem som ou com fone de ouvido) etc., mas não para ligações.


5. Nunca presenteie um japonês com CD de sertanejo.

"Nunca" significa jamais, em hipótese alguma. A não ser que você queira passar vergonha, nem sequer cogite dar um CD de dupras çertanejas a um nativo, pois ele pode até dizer depois que gostou, mas pode ter certeza que será só por educação. Além disso, essa epidemia que se alastrou no Brasil é problema exclusivo do Brasil; vamos colaborar e poupar o Japão desse desgosto.

Se quiser mesmo comprar um CD como プレゼント, escolha algo de bom gosto, como Tom Jobim, Chico Buarque, Elis etc.


6. Não olhe fixamente nos olhos da pessoa com quem está conversando.

Isso pode soar como o inverso da lógica ocidental, e é mais ou menos por aí. Olhar fixamente nos olhos, o que lá é chamado de 『ジロジロ見(み)』, é considerado desrespeitoso, pois pode deixar a pessoa constrangida. Portanto, olhe nos olhos, mas lembre-se de desviar o olhar com certa frequência.


7. Não cumprimente as mulheres com beijinho.

Por mais que você esteja acostumado a dar beijinhos nas amigas brasileiras, jamais tente reproduzir isso com as japonesas, a não ser que você queira correr o risco de ser acusado de セクハラ, "sexual harassment". Ainda que o Japão tenha se ocidentalizado bastante, especialmente nas últimas duas décadas, eu, particularmente, duvido que algum dia esse hábito fará parte dos seus cumprimentos rotineiros.


8. Não fume em qualquer lugar.

Os japoneses são muito estressados, e uma das consequências disso é a alta porcentagem de fumantes. Mas isso não quer dizer que é permitido acender um cigarro em qualquer lugar; é importante observar as placas nas calçadas, e se atentar para os fumódromos estrategicamente localizados.


9. Nunca dirija alcoolizado.

A lei japonesa, diferentemente da nossa magnífica legislação brasileira, não é tolerante com assassinos que enchem a cara e saem cometendo barbaridades à vontade pelas ruas e rodovias. Fiz uma breve pesquisa na Wikipédia, e a lei contra idiotas alcoolizados funciona da seguinte maneira:

Se, no teste de bafômetro, forem detectadas entre 15 a 25 mg de álcool, a pena é de até 3 anos de cadeia ou multa de até ¥500.000 (cerca de R$10.000).

Mas se for superior a 25 mg, são até 5 anos ou ¥1.000.000, o dobro do valor. Sim, acho que sai mais barato pegar um táxi, a não ser que você esteja em uma 居酒屋・いざかや em Tóquio e more em Hiroshima.


Claro, isso é apenas a minha percepção, e todos são livres para discordar! Aliás, ia escrever 10 tópicos, mas em vez disso, vou deixar aberto para quem queira compartilhar algum ponto de vista ou experiência pessoal! おねがいします!





quarta-feira, 29 de junho de 2011

Como dizer? #006 - "Não liga não!"

Antes de terminar a série "Sobrevivendo no comércio japonês", vamos ver mais um post "Como dizer?"; a expressão de hoje é:


"Não liga não!"


Alguém pode dizer: "Eu sei! É 電話(でんわ)しないで!』", ou algo parecido, o que seria certo se a frase em questão fosse no sentido de telefonar.

Como aqui o que interessa é dizer "Não dê bola", fica bem diferente:


(き)にするな!』


Pois é, esse 『』 aparece em vários lugares, com múltiplos significados. Compõe as palavras "ar", 『空気・くうき』; "Aikidô", 『合気道』; "sentimento", 『気持ち・きもち』 etc. Não me perguntem por quê. Nem tudo em nihongo faz sentido, infelizmente.

Mas vejamos umas frases de exemplo:


『昨日(きのう)のことは気にするなよ、大(たい)したことじゃないから。』

"Não ligue sobre ontem não; não é nada importante."


Ah sim, o 『するな』, em que 『』 indica "proibição", é uma forma bastante informal. Mas a expressão pode ser formal também:


『先生(せんせい)はいろいろ変(へん)なことを言(い)いますけど、

なるべく気にしないでください。』


"A professora fala algumas coisas estranhas, mas procure não ligar."


Na região de 関西・かんさい, o mais natural seria escutar algo como:


『何(なん)やねん、そんなこと気にせんでええがな!』


Nem parece o mesmo idioma, mas é. "Traduzindo" para o 標準語ひょうじゅんご, japonês padrão, seria mais ou menos:


『何(なに)それ、そんなこと気にしなくてもいいよ!』

"Que é isso, não precisa dar bola pra essas coisas!"


Pois é. Coitado de quem aprende japonês no Brasil e vai direto pra 大阪おおさか, por exemplo. Deve se sentir perdidinho.

Comentei um pouco do regionalismo de 関西 (conhecido como 関西弁かんさいべん) porque é bem interessante e engraçado; em breve farei um post dedicado a isso.

Bom, acho que por hoje é só. E nem levei 10 dias para postar, viram só?

では!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Títulos de filmes americanos no Japão

Quem é cinéfilo como eu deve compartilhar a opinião de que, muitas vezes, os títulos brasileiros que as produtoras inventam são simplesmente ridículos. São incontáveis exemplos, mas os mais recentes que me vêm à cabeça agora são "Atração Perigosa", The Town, com Ben Affleck e Jeremy Renner, e "A Origem", Inception, que dispensa apresentações.

The Town, aliás, é um ótimo filme, muito bem dirigido pelo péssimo ator Ben Affleck, que recebeu críticas muito positivas no ano passado, mas convenhamos: "Atração Perigosa" é um título tão vergonhosamente ruim que acaba repelindo muito espectadores, especialmente aqueles que não costumam ler resenhas de cinema.

A questão é: e no Japão, como ficam os títulos de produções americanas?

Não sei se existe uma regra, mas pelo que observo desde a década de 90, o que prevalece é o bom senso: se a tradução literal ficar muito non-sense, recorre-se ao katakana. Mas ultimamente andei pensando no inverso: e se fosse igual ao Brasil, e praticamente todos filmes fossem traduzidos para o nihongo?

É, o resultado seria um tanto quanto estranho, como podemos ver abaixo:


『星戦争・ほしせんそう』


『喧嘩(けんか)クラブ』


おもちゃ物語(ものがたり)


ライヤン兵士(へいし)の救助(きゅうじょ)


(ころ)しにくい
(*do português "Duro de Matar")


(かみ)の町(まち)


カリブの海賊(かいぞく)たち


い・きちがい


『七・なな


『怒(いか)った雄牛(おうし)


『象男・ぞうおとこ』


『蜘蛛男(くもおとこ)(さん)


『黒(くろ)っぽい騎士(きし)


『ほぼ有名(ゆうめい)
("Almost Famous", que virou 『あの頃(ころ)ペニー・レインと』)


蝿・はえ


独立記念日・どくりつきねんび


速さ・はやさ


Enfim, são muitos casos! Sorte deles que têm katakana, e azar o nosso, que temos que aguentar títulos esdrúxulos...

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Empresas japonesas x brasileiras

Credo, o intervalo entre os posts está ficando cada vez maior! A última publicação foi no dia 23 do mês passado...

Bom, pelo menos dessa vez eu tive uma desculpa verdadeira: fiquei sem internet durante 5 dias! Isso por causa de um simples かみなり, raio, que caiu aqui perto e deixou o bairro inteiro sem conexão.

Eu sei que não devo, mas em situações como essa, fica difícil não comparar a qualidade do サービス, serviço, das empresas brasileiras com as japonesas. Enquanto as de lá (Japão) primam por fazer tudo com perfeição, as daqui parecem disputar quem é a menos pior.

Recentemente, chamou muita atenção a reconstrução da rodovia da cidade de Naka (província de Ibaraki) em apenas 6 dias, mas nem preciso ir tão longe para deixar evidente o quão abismal é essa diferença.

No último mês de fevereiro, pedi à minha amiga mineira Érika, que me trouxesse um iPod do Japão. Era bastante simples: eu o encomendaria daqui do Brasil, pela Amazon Japan, e pediria que fosse entregue na Jica, onde ela estava hospedada. Isso foi numa quinta-feira de manhã (horário brasileiro), e ela pegaria o voo para Guarulhos no sábado ao meio-dia (horário japonês). Como no site constava que o pedido seria entregue na sexta-feira - e eu sabia que poderia confiar nessa informação -, confirmei o pedido e fiquei tranquilo.

Mas, por algum motivo, o sistema entendeu que eu iria pagar pelo produto no momento da entrega, em 現金げんきん, cash, e não com クレジットカード, cartão de crédito, como eu queria. Consequência: foram sim fazer a entrega na sexta à noite, mas como a Érika não estava naquele momento, tiveram que levar a mercadoria de volta ao depósito.

O que surpreende não é o fato de terem cumprido a promessa e terem entregue (ou melhor, tentado entregar) o pedido em menos de 24 horas corridas, e sim o fato de eles terem retornado à Jica no sábado de manhã, sem que ninguém entrasse em contato!

Fim de história: meu novo iPod está aqui comigo, graças ao serviço super eficiente da Amazon Japan. Isso até soaria como propaganda, mas o fato é que, por lá, deixar o cliente satisfeito é mais que óbvio. É questão de honra.

Já aqui... estou há mais de um mês lutando para conseguir a troca de uma mesa que veio errada (ah, que fique bem claro: comprei no Magazine Luiza), e fiquei sem acesso à web (NET) durante mais de 90 horas por causa de um relâmpago. Lembrando que, no meio do caos causado pelo terremoto de 11 de março, os japoneses conseguiam se comunicar por e-mails com seus parentes.

Bom, apenas para concluir esse desabafo, deixo duas palavras que expressam bem o meu sentimento em relação à maioria das empresas tupiniquins:


不満・ふまん


不愉快・ふゆかい



Respectivamente: "insatisfação/insatisfeito" e "indignação/indignado".


『インターネットの会社(かいしゃ)のサービスが不満です。』

"Estou insatisfeito com o serviço da empresa de internet."


『1ヶ月(いっかげつ)以上(いじょう)たっても問題(もんだい)を解決(かいけつ)しないですから、不愉快です。』

"Estou indignado porque não resolvem o problema mesmo depois de mais de um mês."

domingo, 20 de março de 2011

Lealdade em momentos catastróficos

Depois da refilmagem de 『ハチ公物語・ハチこうものがたり』 estrelando Richard Gere, intitulada "Sempre ao seu lado", a história do cão Akita mais famoso do oriente ficou ainda mais conhecida.

O vídeo abaixo me fez lembrar o quão leal um cachorro pode ser, tanto em relação ao dono quanto a um amigo:



Eis o que é dito nas legendas amarelas:


『犬(いぬ)が汚れて、多分(たぶん)津波(つなみ)(う)けたんでしょうね。』

"Tem um cachorro sujo, que deve ter sido atingido pela tsunami."


『真(ま)っ黒(くろ)(よご)れています』

"Está sujo, todo preto."


『首輪(くびわ)をつけているから(か)犬ですね』

"Como está de coleira, deve ser um cachorro de casa."


『ちょっとおびえているようです』

"Parece estar um pouco assustado."


『あっ、もう一匹(いっぴき)(し)んでるのかな』

"Ah, será que o outro cachorro está morto?"


『隣(となり)にも犬がいるんですけどね、今(いま)、犬が座(すわ)っているところに』

"Ao lado de onde ele está sentado tem outro cachorro."


『ちょっと動(うご)かないですね』

"Ele não se mexe..."


(な)くなったのかな』

"Será que morreu...?"


(まも)ってるんだよ、アイツ』

"Ele está o defendendo!"


『だから俺(おれ)らのところに来(き)て「(ちか)づくな」と言(い)ってるのかな』

"Será que ele veio até nós para dizer 'Não se aproximem'?"


(み)てられない、コレ』

"Não consigo ficar olhando isso..."


『あっ、動(うご)いてよかった、動いてた』

"Ah, ele se mexeu, que bom!"


『生(い)きててよかった、生きてて』

"Que bom que ele está vivo!"


『だいぶ衰弱(すいじゃく)してるみたいだから早(はや)く助(たす)けに来てほしい』

"Mas ele parece estar bem enfraquecido, por isso seria bom se alguém fosse ajudá-lo."


『あー、起(お)きた起きた』

"Ah, acordou, acordou."


『このすさまじい地震(じしん)をよく無事(ぶじ)でいたなと感(かん)じます』

"Nos faz pensar em como ele saiu ileso desse terrível terremoto."


『このすさまじい地震と津波(つなみ)をよく生き延(の)びたなという感じがします』

"Nos faz pensar como ele conseguiu sobreviver a esse terrível terremoto e tsunami."


『大震災(だいしんさい)を生き延びた生命力(せいめいりょく)

"Uma força vital que sobreviveu a uma catástrofe"


Não sei vocês, mas casos assim me emocionam...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Só no Japão... Mesmo!

Hoje, durante a volta do trabalho, fui surpreendido por um dos podcasts mais interessantes que já escutei.

Intitulado "A Friend in Need", o curto documentário da BBC relata um tipo de empreendimento tão, mas tão exótico, que me fez sentir mais ainda que o Japão é um país de outra dimensão: recrutamento de atores para casamentos.

Isso, isso mesmo. Basicamente, a "empresa" (logo explico o motivo das aspas) batizada de はげまし隊(たい) - um trocadilho entre 「(はげ)ましたい」, "querer parabenizar" e 「」, de "tropa" - contrata pessoas cuja missão é fingir ser convidado do noivo ou da noiva. Detalhe: sem que o(a) parceiro(a) saiba, se precisar!

O que soa como algo totalmente non-sense não só para nós ocidentais (ok, nós da cultura ocidental) como para a maioria dos países deste planeta - acredito eu -, tem se mostrado uma solução bastante eficaz na terra do Sol nascente; prova disso é a sua demanda que, há quatro anos, não para de crescer.

Ryuichi Ichinokawa, um ex-assalariado padrão (chamado "salary-man"), enxergou uma oportunidade de negócios no meio de uma das peculiaridades mais marcantes de seu país: o orgulho.

Conta que sua primeira cliente estava para se casar, mas a situação "vergonhosa" de seus pais a deixou relutante: eram divorciados. O que já até deixou de ser tabu na nossa sociedade, levou a jovem a tomar uma decisão curiosa: contactou a Hagemashi-tai e pediu que um casal de atores de meia-idade se passasse por seus pais na cerimônia.

Pedido feito, pedido atendido: ninguém descobriu que os "pais" eram, na verdade, dois desconhecidos que haviam memorizado todas as informações pessoais de sua "filha".

A pergunta que não quer calar é: e os pais verdadeiros? Como se sentiram sabendo que foram substituídos por atores, contratados pela própria filha? Ou será que não ficaram sabendo?

Outro caso bastante interessante (ou bizarro, talvez) é de um jovem cujos pais haviam falecido, e temia que isso pudesse interferir no casamento, já que a família da noiva era bastante conservadora. Não hesitou, e solicitou a presença de quase 30 atores, que fizeram papeis de parentes, amigos e até mesmo do seu chefe da empresa onde trabalhava - ou melhor, onde havia trabalhado, pois pouco antes do dia D, havia sido demitido.

Se o orgulho o impediu de contar à futura esposa que seus próprios pais já não eram vivos, o que dirá o status "humilhante" de desempregado? Mas isso não foi problema: desembolsou cerca de ¥400 mil (algo em torno de R$8100), dinheiro que havia recebido como acerto da empresa, para que pudesse oficializar seu matrimônio de cabeça erguida.

O repórter da BBC entrevistou uma das voluntárias desse caso, que atuou como irmã do Sr. Hoshino, o protagonista. Ao ser questionada se não sentia peso na consciência por fazer parte de uma mentira, a moça de 28 anos responde que de fato sente culpa, mas sabe que, no fundo, está ajudando uma pessoa. Ela ainda acrescenta que seu ボランティア精神(せいしん), espírito de voluntária, é que a torna tão boa no que faz, pois o valor monetário que recebe pelo trabalho é bem baixo.

O próprio Sr. Hoshino também diz ter sentido 罪悪感・ざいあくかん - sentimento de culpa -, mas não se arrepende de sua escolha; afinal de contas, até o prefeito da cidade estava entre os convidados; era questão de vida ou morte (talvez literalmente!).

Uma coisa surpreendente é que nem mesmo sua esposa sabia dos falsos pais. "Achei que (ela e meus sogros) fossem ficar bravos e gritar comigo, mas foram compreensivos", conta.

Como vocês se sentiriam na situação dele? E na dela? Conseguem se imaginar cumprimentando seus supostos sogros, e depois descobrir que eram apenas atores assumindo o lugar de pessoas falecidas?

Pois é. No país chamado Japão, onde muitas vezes o orgulho fala mais alto que a razão, casos como o do Sr. Hoshino não são absurdos.

O podcast ainda fala de outras coisas muito interessantes ainda, mas como já ficou longo, vou dividir o post em duas partes. E quem quiser escutá-lo na íntegra, clique aqui.

Ah, peço desculpas pelo longo período sem postagens. Mas ainda vou responder as perguntas pendentes!

では!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Fazer5S?

Quem já ouviu falar em "Fazer 5S"?

Com certeza muitos. O termo "Cinco S", criado no Japão, se popularizou no mundo inteiro e hoje faz parte do jargão empresarial. É comum ouvir "Hoje é dia de 5S", ou "Vamos fazer um 5S na sala".

O que poucos sabem é que dizer "Fazer 5S" não está 100% certo.

Bom, para começo de conversa, no que consiste o tal de 5S, que no Nihon é chamado de『ごエス』?

Copiei a definição da Wikipédia:


整理・せいり

“いらないものを捨(す)てる”


整頓・せいとん

“決(き)められた物(もの)を決められた場所(ばしょ)に置(お)き、いつでも取(と)り出(だ)せる状態(じょうたい)にしておく”


清掃・せいそう

“常(つね)に掃除(そうじ)をして、職場(しょくば)を清潔(せいけつ)に保(たも)つ”



清潔・せいけつ

“3S(上の整理・整頓・清掃)を維持(いじ)する”


躾・しつけ

“決められたルール・手順(てじゅん)を正(ただ)しく守(まも)る習慣(しゅうかん)をつける”



Certo?

Agora vamos ver a tradução:


Seiri

"Jogar fora as coisas desnecessárias"


Seiton

"Deixar as coisas em seus devidos lugares, para que possam ser usados a qualquer momento."


Seisō

"Fazer faxina regularmente, mantendo o local de trabalho limpo."


Seiketsu

"Manter os 3S (seiri, seiton e seisō)"


Shitsuke

"Cultivar o hábito de cumprir corretamente as regras e procedimentos estabelecidos."


Entendem por que "Vamos fazer 5S" soa um pouco estranho? Afinal, ao fazer uma faxina, geralmente você está pensando apenas naquele momento, sem se preocupar com o o que vai acontecer depois disso, não é verdade?

Ah, isso não sou eu que estou dizendo; vi em um livro de engenharia no Japão mesmo: 『4Sをする』.

Portanto, a partir de hoje você pode corrigir as pessoas que usarem o termo incorretamente! Mas lembrando: o termo "5S" existe e é uma das filosofias mais conhecidas no mundo corporativo, que diz respeito não apenas à limpeza em si, mas também à disciplina que deve ser criada para que o ambiente seja mantido limpo e organizado!

Vou ficar devendo a palavra do dia! ごめんなさい!

では!


sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Estudar no Japão é...

Depois que o despretensioso post "Morar no Japão é..." repercutiu tanto, decidi fazer um
similar, mas dessa vez sobre curiosidades do ensino no Japão.

Acredito que não são muitas as pessoas que tiveram esse privilégio (ou infelicidade? Cada um pode tirar suas conclusões, ao término da lista!) de frequentar escola primária e ginásio (sei que soa antiquado chamar assim) na terra das melancias quadradas, portanto talvez esta lista seja até mais surpreendente que a primeira.

Alguns itens dizem respeito à minha experiência pessoal, e que portanto podem não ser
aplicáveis a qualquer escola, mas acho que o padrão não sai muito disto:

Estudar no Japão é...

  1. Ficar na escola das 8 da manhã até as 4 da tarde (ou 7 da noite, do ginásio em diante).
  2. Rapidamente concluir que o ensino público de lá é superior ao ensino privado brasileiro, em muitos quesitos.
  3. Estudar 6 anos de primário, 3 de ginásio e mais 3 de colegial (ensino superior varia).
  4. Iniciar o ano letivo em abril e terminá-lo em março.
  5. Seguir um calendário trimestral (abril a julho, setembro a dezembro e janeiro a março).
  6. Ter aula de caligrafia com pincel (習字・しゅうじ).
  7. Precisar passar no vestibular para entrar no 高校(こうこう), colegial.
  8. Descobrir que existe cerimônia para tudo: início do ano letivo, término do trimestre, início do trimestre, recepção e despedida de estagiários, recepção de novos alunos, despedida de professores, formatura etc.
  9. Precisar trocar de sapatos para entrar na escola, do mesmo jeito que é feito nos lares.
  10. Praticamente nunca ouvir algo do tipo "Fulano matou aula hoje" (porque os pais não toleram esse tipo de coisa).
  11. Ao se mudar de cidade, ser automaticamente alocado na escola pública mais próxima (ou seja, os pais não precisam ir atrás de escola para os filhos).
  12. Marchar como militar nas reuniões matinais, em que são dados recados gerais.
  13. Ter almoço gratuito na escola, até o ginásio, servido pelos próprios alunos, em um esquema de revezamento semanal.
  14. Usar avental, touca e máscara (fornecidos pela escola) para servir o almoço.
  15. Concluir que seu primeiro nome não tem importância, pois é chamado só pelo sobrenome (exceto no caso dos estrangeiros: eu era conhecido como Gabu).
  16. Durante o primário, ter um único professor para todas as matérias, com exceção de música.
  17. A partir do ginásio, iniciar e terminar cada aula com uma saudação entre professor e alunos: 「お願(ねが)いします」, "Por favor", no início e 「ありがとうございました」, "Obrigado", no fim (é também comum que os professores exijam que os alunos se levantem, endireitem a postura e, aí sim, saúdem).
  18. Constatar que muita coisa é padronizada, mesmo não sendo obrigatória: calçado com detalhe azul para os meninos, e vermelho para as meninas; bolsa preta para eles e vermelha para elas etc.
  19. No inverno, estudar com um baita aquecedor queimando querosene dentro da sala.
  20. Fazer a limpeza da escola inteira, depois do almoço (isso, inclusive dos banheiros!), todos os dias.
  21. Aprender a tocar algum instrumento: flauta (obrigatoriamente), teclado, percussão etc.
  22. Ter o primeiro contato oficial com o alfabeto romano na quarta série.
  23. Precisar se apresentar na frente de todos, se for aluno novo (mesmo que mal saiba escrever o próprio nome, como foi o meu caso).
  24. Descobrir que oficialmente, "tirar no pô", é chamado "jankenpo".
  25. Ser obrigado a participar de maratona (sim, corrida, resistência!) no inverno, e se estiver nevando, o problema é seu.
  26. Aprender a pular corda (individual), e descobrir que isso é visto como uma modalidade esportiva.
  27. Descobrir que é obrigatório que as escolas sigam um padrão mínimo: salas de aula, pátio e ginásio.
  28. Observar que tudo na escola é feito com planejamento e muita seriedade.
  29. Ter monociclos na escola (saber andar já é outra história!).
  30. Aprender a costurar e descascar frutas e legumes, e isso na quinta série!
  31. Aprender a respeitar os professores, mesmo que na marra.
  32. Ouvir o tradicional toque de sino no início e término das aulas.
  33. Não ter cantina na escola, até o ginásio.
  34. Poder contar com salas específicas para culinária, artes, música, carpintaria etc.
  35. Periodicamente, ser obrigado a fazer exame de urina, vermes, fezes... (argh...).
  36. Receber visita trimestral (ou anual, não lembro) de um dentista, que passa um corante vermelho nos dentes de cada aluno e manda escová-los, para ver quem não sabia escovar direito.
  37. Ter a cabeça examinada pelo professor, à busca de piolhos.
  38. Todos os dias, antes do início das aulas, responder a chamada, que também serve como monitoramento de saúde (por exemplo, responde-se "Presente, e estou bem", ou "Presente, e estou com pedras no rim").
  39. Ser proibido de usar lapiseira até a quinta série (pelo menos na minha escola!).
  40. Precisar usar crachá, contendo nome completo, ano letivo, turma e tipo sanguíneo (é, pensam até nisso).
  41. Ter o seu sobrenome bordado na roupa de educação física.
  42. Poder participar de olimpíadas esportivas regionais, se se destacar nas aulas de educação física.
  43. No primário, ter que usar uma roupa de educação física composta por uma camisa polo e shortinho. No inverno, tem manga longa, mas o shortinho continua.
  44. Ser proibido de usar várias coisas (na escola, claro): óculos escuros, perfume, cabelo (des)colorido, maquiagem, brincos, pulseiras etc. (não que eu quisesse usar esses 4 últimos itens).
  45. Precisar usar uniforme; em alguns lugares, desde o primário; em outros, desde o ginásio.
  46. Anualmente, fazer treinamento para situações de emergência, como incêndio e terremoto.
  47. Precisar escrever muitas, muitas redações.
  48. Descobrir que as férias (principalmente as de verão) são uma farsa: te dão tarefa, e em grandes quantidades. Ai de quem não fizer tudo.
  49. No primário, precisar ir para a escola em um grupo, pré-determinado pela própria escola, em fila indiana.
  50. Suar para memorizar mais de 1000 kanji até a sexta série, mais uma cacetada no ginásio e assim por diante.
  51. Ter o espírito de liderança cultivado desde pequeno: tem chefe da sala, do grupo da sala, do grupo de ida à escola etc.
  52. No começo do ano letivo, receber uma visita do professor responsável pela classe, com o objetivo de conhecer os pais do aluno e sob quais condições ele vive.
  53. Trimestralmente, ter um dia em que os pais vão à escola a ficam no fundo da sala, acompanhando as aulas.
  54. Ser avaliado trimestralmente com uma nota para cada disciplina, de 1 a 10.
  55. Mesmo que termine uma prova em 15 minutos, ter que esperar no seu lugar, sentado e calado, até o final do tempo estabelecido.
  56. Precisar escrever diário, que o professor recolhe, lê e faz anotações (na minha sala, era todo santo dia).
  57. Participar, por um dia, do plantio de arroz (pelo menos na minha escola, que era rodeada de arrozais).
  58. Receber um álbum de formatura que aparenta seguir o mesmo modelo desde a Era Meiji.
  59. Chamar a matemática do primário de 算数・さんすう, /san.sū/ e a do ginásio para cima, de 数学・すうがく, /sū.gaku/.
  60. Ficar impressionado com o hábito de leitura dos colegas.
  61. Seguir um calendário anual que parece ser padronizado pro país inteiro.
  62. Descobrir que toda escola do país tem um hino, e você tem de saber cantá-lo de cor.
  63. Participar de eventos obrigatórios como Bunkasai (Feira Cultural), Undokai (gincana esportiva), a já citada maratona, entre outros.
  64. Por mais desafinado que seja (eu até que me garantia), ser obrigado a participar do coral da classe, que se apresenta na Feira Cultural.
  65. Precisar treinar e ensaiar para o Undokai, desde quase 2 meses antes da apresentação, para que, como tudo, seja perfeitamente organizado, com cerimônia de abertura/encerramento, discursos, canto, entrega de troféus etc.
  66. Ter um professor de inglês que parece ter sido discípulo do Joel Santana: "Rettsu singu Retto itto bii" (Let's sing "Let it be"), "Aimu fain, sankyuu" (I'm fine, thank you), "Purizu gibu mi a pisu obu appurupai" (Please give me a piece of apple pie) etc.
  67. Participar de excursão da escola na sexta série, em que é permitido levar guloseimas no valor de, no máximo, ¥320 (equivalente a +/- R$5,00).
  68. Do ginásio para frente, ter duas semanas de prova por trimestre: uma no meio e outra no término.
  69. Ficar sabendo de colegas que, ainda no ginásio, varam a noite estudando para as provas.
  70. Ter colegas que, na sexta série, estão se preparando para o vestibular de escolas privadas (detalhe: estou falando de ginásio!).
  71. Ter professores que ditam o que você pode e não pode fazer dentro e fora da escola.
  72. Poder contar com professores especializados em ensino a crianças excepcionais.
  73. No ginásio e colegial, ser obrigado a fazer parte de um clube (baseball, tênis, tênis de mesa, vôlei, música, computação etc.), que tem atividades diárias, após as aulas, e até nos finais de semana e durante as férias.
  74. Sofrer ijime (bullying) e não pedir ajuda a ninguém (eu nunca sofri, mas sabe-se que é um problema recorrente no Japão).
  75. Até o ginásio, não poder levar dinheiro para a escola.
  76. Ganhar chocolate de uma menina no dia 14 de fevereiro, Valentine's Day, e retribuir (ou não) no dia 14 de março, White Day (esta, uma invenção japonesa).
  77. Não ver casaiszinhos namorando na escola, até porque é proibido até o ginásio.
  78. Ser proibido de consumir balas, doces e refrigerantes dentro das dependências da escola.
  79. Não escovar os dentes após o almoço na escola (até eu entrei nessa!).
  80. Poder ir de bicicleta à escola (ginásio) apenas se morar a uma distância mínima pré-estabelecida.
  81. Virar a fofoca do ano pelo simples fato de andar pelo corredor junto com uma colega (eu não, porque não tinha tamanha ousadia!).
  82. Precisar entregar um mini-relatório diário do grupo, dizendo como cada um se portou durante o dia.
  83. No ginásio e colegial, passar por uma avaliação física no início do ano, que inclui prova de resistência (1500 m, se não me engano), salto em distância, arremesso de peso, 100 metros rasos, salto em altura etc.
  84. No intervalo de atividades físicas, quando está quente, beber chá de trigo ( 麦茶・むぎちゃ)gelado no lugar de água.
  85. Ter uma matéria cuja avaliação é o seu desempenho no cultivo de uma flor de crisântemo.
  86. Ao ingressar no ginásio, automaticamente começar a chamar os alunos do segundo e terceiro ano de veteranos (先輩・せんぱい)e usar a forma polida (敬語・けいご) para conversar com eles.
  87. Estudar Cálculo Diferencial e Integral no colegial.
  88. Na formatura do primário (sexta série), cantar músicas melodramáticas dedicadas aos formandos, com letras que dizem algo do tipo "Parabéns por este dia maravilhoso, e adeus até que nos encontremos novamente...!", "O esplendor da sua imagem de asas abertas ardem nos meus olhos...!" etc., sendo que todos vão continuar se vendo no ano seguinte.
  89. Receber uma espécie de quadro contendo um recadinho de despedida de cada colega da classe, ao mudar de escola.
  90. Considerar todo esse rigor na escola uma coisa natural, assim como os estudantes do Brasil consideram a sua vida mansa na escola algo óbvio (e muitos reclamam, ainda!).
  91. Ficar sempre pensando: "E se no Brasil fosse assim...?".

Bom, no Brasil jamais funcionaria um sistema de ensino como esse (aliás, existe algum que funcione no Brasil?), por motivos óbvios.

Não que o modelo japonês seja o ideal (nem mesmo para os próprios japoneses), porque existem pais e professores que exageram no nível de cobrança, o que causa sérios problemas psicológicos, em muitos casos.

Mas por outro lado, não é difícil concluir que o Japão conseguiu se estruturar de maneira tão organizada graças a sua educação rigorosa, que exige muita dedicação e disciplina em tudo, desde cedo.

Foi interessante escrever sobre meus dias de escola no Japão, pois lembrei de muitas e muitas recordações; muitas boas, outras nem tanto. Se me perguntarem se foi sofrido, digo que foi, e até bastante; mas felizmente foi um tipo de sofrimento bem diferente daquele encarado por crianças de escolas públicas brasileiras.

É fato que, devido ao contraste gigantesco que existe entre a cultura japonesa e a brasileira, a comparação do ponto de vista educacional pode não ser muito válida, mas refletir um pouco não faz mal a ninguém.

Ah, e volto a lembrá-los: a lista acima foi baseada na minha experiência em uma escola pública de uma cidadezinha interiorana, com 7 mil habitantes.