sexta-feira, 18 de junho de 2010

O Japão e as invasões bárbaras

Ontem participei de uma palestra do dono (社長、しゃちょう) de uma empresa de 仏壇(ぶつだん), aqueles altares budistas (tive que procurar no dicionário esta tradução, confesso!) usados principalmente em velórios (葬式、そうしき).

Achei que ele fosse focar na questão administrativa da empresa, que é líder do setor no Japão, mas não. Ele tratou da questão cultural japonesa, sob uma perspectiva muito interessante, de quem já viveu bastante (está com 70 anos de idade) tanto aqui quanto no exterior.

Quem me segue no Twitter pode ter visto que o conteúdo não foi muito animador, pra dizer a verdade. Deve ser de conhecimento de todos que, desde os anos 90, a economia japonesa está estagnada, bem longe do crescimento vertiginoso observado a partir dos anos 60, quando o país chegou a crescer 11% ao ano, superando a taxa atual da China. Tanto é verdade que hoje se fala dos "20 anos perdidos" (desde 1990), ou 25, supondo que a situação vai continuar ruim até 2015.

Existe a questão da dívida externa, que chega a 90兆円(ちょうえん), ou ¥90.000.000.000.000, 90 trilhões de ienes, algo em torno de 1 trilhão de dólares. É uma cifra que assusta pela quantidade de zeros, mas não se trata de um problema unicamente econômico; ou seja, é bem mais complicado.

Não sou economista nem sociólogo pra me aprofundar na questão, mas o que pude absorver é que falta atitude na geração atual (ou "geração Y", rótulo que não me agrada), bem diferente dos baby-boomers (nascidos após a Segunda Guerra), que suaram a camisa pra reerguer o país das cinzas.

Um dos principais fatores levantados pelo palestrante Sr. Hasegawa é a invasão cultural ocidental, principalmente americana. Isto não é surpresa, é só comparar o comportamento dos jovens de hoje e da geração anterior; mas ele contou algo que eu - e aparentemente nenhum dos ouvintes - sabia.

É o seguinte: durante a guerra sino-japonesa, na década de 1930, muitos japoneses se instalaram em Taiwan e por lá ficaram. Estranhamente, parece que, apesar disso, os taiweses não encaram os nipônicos como invasores (o que, na prática, foram), pois a cultura local mudou positivamente após esta fusão. O que se relaciona com a situação atual é que, no final das contas, após a ocidentalização agressiva iniciada nos anos 1990, onde foram parar os japoneses "autênticos"?

Sim, em Taiwan.

O Sr. Hasegawa disse ter amigos que regressaram ao Japão, depois de muitos anos morando em Taiwan, e ficaram chocados com o que viram. Acho que eu também ficaria.

Claro, o Japão ainda conserva muitos aspectos positivos que vêm sendo herdados há séculos, como a questão educacional, que é modelo para muitos países (talvez não o Brasil, infelizmente), e claro, o respeito entre as pessoas. Aliás, ele confirmou algo que eu supunha: o japonês é idioma com o menor número de palavras ofensivas do mundo.

É algo para se orgulhar, mas os japoneses parecem não ter a mínima noção disso. Se eles soubessem da criatividade insuperável que o povo brasileiro tem para criar palavrões, talvez eles dariam mais valor à finesse de sua língua nativa. Eu acho deplorável este aspecto brasileiro, que insiste em deturpar o idioma português cada vez mais.

Aliás, ele fez questão de ressaltar outras qualidades como esta, que para quem sempre viveu aqui, são mais difíceis de serem valorizadas. Sobre a questão da segurança, por exemplo, ele disse:


『日本だけすよ、女(おんな)の人(ひと)が一人(ひとり)で、夜(よる)

自由(じゆう)に街(まち)を歩(ある)き回(まわ)れるのは。』


"É só no Japão que as mulheres podem andar sozinhas pela cidade, livremente, à noite!"


E é verdade. Chega a ser estranho ver mulheres indefesas, algumas até idosas, andando tranquilamente por ruas escuras à noite.

Outra coisa que ninguém parecia saber é o fato Japão da Era Edo (江戸時代、えどじだい), de 1603 a 1868, ter sido considerado o país mais rico do mundo, em termos culturais. Foi uma autoavaliação? Não, não, isto sob a ótica de um estudioso ocidental da época (cujo nome acabei esquecendo).

Ou seja, a mensagem que ele quis passar, pelo que entendi, foi:


"Tenham orgulho de seu país e se mexam!"


Resta saber se os demais ouvintes também interpretaram assim, né?

Enfim, foi uma palestra que me fez, mais uma vez, refletir sobre os problemas socioculturais que assombram o futuro do Japão, e que são totalmente diferentes daqueles enfrentados no Brasil.

8 comentários:

Anônimo disse...

ótimo post, concordo 100%.
A "americanização" do japão é algo que preocupa e entristece a nós que estimamos a cultura japonesa.
O governo precisa diminuir a importação de "cultura" ocidental e fortalecer os ideias japoneses, pois como você bem disse, é provável que muitos japoneses não saibam o quanto o japão é rico em cultura.
Para piorar a dívida interna do Japão é de 3 trilhões, EUA e Europa estão em situação pior.O futuro do mundo é realmente assustador...

Satomi disse...

Olá Gabriel

Realmente com imenso pesar constata-se a falta ou a não existência do honrado ¨大和魂¨ aos jovens japoneses da recente geração.

Satomi disse...

Olá Gabriel

Realmente com imenso pesar constata-se a falta ou a não existência do honrado ¨大和魂¨ aos jovens japoneses da recente geração.

carlos montefusco disse...

ola gabriel, vejo que tudo se encaminha bem por ai!
teu post reflete minha preocupação atual com a geração brasileira da qual faço parte. digo isso, porque aqui em israel , é possível enxergar o investimento em educação por uma outra ótica. e é preocupante ver o quão bem os israelenses preparam suas gerações e o quanto nós (brasileiros com qualquer descendência) estamos tão longe de perceber que a realidade é mais pesada da que se apresenta no Brasil! experiências como essa, de ir ao Nihon, ou de vir aqui em Israel, que nós abre a cabeça!

Lilian E. Iwamoto disse...

Yo Gabriel! ^^

Algo me intriga... você é cristão ou algo parecido? Porque precisar procurar no dicionário o significado de butsudan realmente me surpreendeu OO

Mas a dívida, Taiwan e americanização (apesar de óbvia) realmente me chocaram... nunca que iria supor algo assim. Com posts assim o meu Japão esteriotipado parece cada dia mais longe (que drama ¬¬')

Bom, mas eu adoro os posts, sempre perspectivas difentes (Y). Continue sempre melhorando ;)

ariel disse...

古い国ですから、日本はすごいです。

Anônimo disse...

otimo post

Shimono disse...

Gabriel,

eu acho que o mesmo conselho para "nos mexermos" vale também para os descendentes de japoneses aqui do Brasil.

É um fato que grande parte dos estudantes de universidades públicas, e consequentemente, da elite intelectual do país é de origem nipônica, mas mesmo assim, grande parte das empresas não são de japoneses. Todos os formados vão trabalhar como empregados em outras empresas pelo conforto do salário.

Acredito que a comunidade nipo-brasileira deveria ser mais ativa nesse sentido, e dar mais suporte e oportunidades para os empreendedores.

Também acho importante observar os problemas do Japão, tentar extrair conhecimento do que acontece por lá, e até manter as tradições e culturas dos ancestrais, mas também devemos aceitar que estando no Brasil, somos brasileiros, e temos que tentar pensar e agir assim. Os problemas locais são muitas vezes importantes do que o que está acontecendo do outro lado do mundo (não li todo o seu blog, então me perdoe se a crítica/sugestão foi infundada. Estou escrevendo apenas pelo que li nesse Post).

Gostei do Blog, parabens!