domingo, 3 de outubro de 2010

Aprendendo japonês: kanji - vilões ou aliados?

Frequentemente eu me pergunto: "Por que aprender japonês é considerado tão difícil?". Alguém pode simplificar a resposta: "Porque tem milhares de simbolozinhos, cheios de tracinhos!". É, não deixa de ser verdade.

Mas o idioma não se restringe a kanji, feliz ou infelizmente. Como assim, infelizmente? Depende do ponto de vista, digamos. Cheguei a pensar que a vida dos estudantes de japonês seria mais fácil se fossem os ideogramas mesmo, igual ao chinês.

"Como assim, aí sim seria muito pior!", muitos devem dizer. Talvez sim, talvez não; o que me levou a pensar isto foi uma frase relativamente simples com que me deparei durante meus estudos de mandarim. Com cerca de 10 ideogramas, a frase estava pronta, perfeitamente aplicável a uma situação real.

Foi aí que pensei: "E pra dizer exatamente esta mesma frase em japonês, como seria?". Pois é, seria simples, mas gramaticalmente, nem tanto! Infelizmente não lembro da frase, mas sei que envolvia a forma potencial, que não costuma ser ensinada tão cedo.

A comparação do japonês com o mandarim é bastante interessante por esta e várias outras questões. Pelo pouco de mandarim que aprendi, pude concluir que, se por um lado exige-se saber milhares de ideogramas (ouvi dizer em torno de 5 mil para se virar relativamente bem), por outro, não há preocupação com a gramática, o que é muito bom. É tudo muito simples, sem conjugações verbais, gênero, concordância etc. Às vezes me pergunto como uma língua pode ser tão diferente daquela que lhe deu origem... Tirando os "cognatos" - as palavras com o mesmo kanji e significado, porém com leituras totalmente distintas -, não há maiores semelhanças.

Mas depois deste parênteses sobre mandarim, voltemos ao nihongo.

Uma coisa um tanto quanto frustrante no idioma japonês - diferentemente do coreano, pelo que ouvi dizer - é se sentir um analfabeto completo, mesmo tendo um certo conhecimento. Como assim?

É simples: no português, basta memorizar o alfabeto para que a pessoa consiga ler virtualmente qualquer coisa, mesmo que não saiba o significado. Isto, eu imagino, deve servir de motivação para quem está aprendendo nosso idioma, ao contrário de quem está aprendendo japonês e se depara com um artigo sobre a economia japonesa, por exemplo. É aterrorizante! Imediatamente, o pensamento que vem à cabeça é:


"Não sei nada, não aprendi nada, vou desistir."


É verdade ou não? Eu já estive nessa situação, e lembro que não foi muito agradável. Mas engana-se quem pensa que os kanji são - de novo - os vilões da história. Na verdade, à medida que você os estuda e começa compreendê-los, eles se tornam cada vez mais amigáveis. Vou dar um exemplo simples disso:


O kanji』 é de "fogo", 『ひ』, certo? E 『』 é "montanha", 『やま』.

O que acontece se eu uni-los? Em outras palavras, o que vem a ser 『火山』?

Por dedução... Fogo + Montanha = ...?

"Vulcão", não? Sim, e se lê 『かざん』.


Por mais que a pessoa não soubesse as leituras 『』 e 『ざん』, pelo menos ela teria uma ideia do significado! É, infelizmente isso nem sempre funciona, mas existem incontáveis exemplos como este.

Isto pode funcionar de outra maneira também: através da semelhança com outro kanji. Por exemplo, e são parecidos, têm a mesma pronúnciaどう」 e significados relacionados entre si (movimento e trabalho, respectivamente); ou seja, conhecendo um, é possível arriscar a leitura do outro. Esta é uma característica bastante peculiar do idioma!

É óbvio que decorar os kanji - o que inclui, além do significado e das leituras (que podem chegar até a 6 ou 7 em alguns casos), a ordem certa dos traços - não é uma tarefa fácil, nem mesmo para os próprios estudantes nativos. Engana-se quem pensa que eles tiram tudo de letra; é um aprendizado que se inicia na primeira série do ensino fundamental e se estende praticamente para a vida inteira.

Eu mesmo participei desta "jornada" enquanto vivi no Japão pela primeira vez, e não preciso me esforçar para lembrar do quanto foi árduo. Aliás, isto levanta outra questão, que é a vida mansa que os estudantes brasileiros levam e nem sequer se dão conta. Imaginem uma escola pública brasileira instituir regras como: (muita) tarefa durante as férias, atividades complementares (os chamados bukatsu, "clubes") obrigatórias (inclusive aos finais de semana), faxina (!) de todas as dependências da escola por partes dos alunos etc.?

...não, é melhor nem imaginar. Mas este é um assunto para outro post.

O que quis dizer com tudo isto é que, eu concordo que os kanji podem virar uma barreira no aprendizado do idioma, mas conforme você os estuda de verdade, vai percebendo que esta é uma constatação superficial. Exige sim bastante disciplina e dedicação (seria este o segredo da tal paciência oriental?), mas que com certeza são válidos para aqueles que realmente se interessam pelo idioma e pela cultura japonesa.

8 comentários:

LTerassi disse...

Sério, não sei porquê todo mundo não consegue aprender kanjis. É super fácil, pois eles são lógicos. Pura matemática. Na maior parte das vezes, um radical (ou primitivo, caso tenha feito o livro Remembering the Kanji) dá parte de seu significado, e o outro, de sua leitura.

No meu caso, o kanji, completamente, foi um aliado, principalmente por causa dos jukugos (palavras formadas por dois ou mais ideogramas). Sempre que eu leio algum texto japonês, eu deduzo tanto leitura quanto significado de seus kanjis. E para aprendê-los, só precisei deste blog, do alljapaneseallthetime.com e do Remembering the Kanji. Passando disso, foi baba.

Rodrigo disse...

É sempre bom ouvir aquilo que se quer ouvir. Conforta.
Continuo um leitor assíduo.
Valeuzão

Anônimo disse...

interessantíssimo post!estudo japonês há uns 2 anos e quando entro em sites japoneses ainda é assustador!...talvez mandarim seja um pouco menos difícil do que parece, mas 5 mil desanima né!hahahaha

ariel disse...

日本語の漢字は初めて時、大切なしよう思ってたけど、勉強から大切思って、それは漢字なし日本語は何もがあって、やすいですね!

Marcus Aurelius disse...

Hehe, aqui tem alguém que acha justo o contrário, que a gramática do japonês faz sentido e que a gramática do chinês é uma bagunça sem sentido:

http://www.guidetojapanese.org/blog/2009/07/24/the-1-chinese-myth/


Mas voltando ao kanji, eu acho que kanji é um conceito bem interessante, mas os séculos de evolução deixaram as coisas muito bagunçadas, com kanjis com múltiplos significados, múltiplas leituras e às vezes usados em compostos que não correspondem a nenhum de seus significados ou nenhuma de suas leituras.

Exemplos de combinações que têm pronúncia irregular ou significado imprevisível:
出来る, 大人, 流行る, 不機嫌

Exemplos de kanjis parecidos com significados completamente diferentes:
木, 本, 石, 右, 土, 士, 入, 人

Se cada kanji tivesse no máximo 2 leituras (on e kun) e 1 significado, e se combinações ilógicas fossem removidas, seria bem melhor.


Citação:

(...) but Kanji can combined to form new words. For example, if you combine the Kanji for "small", and "woman", you get the word "carburetor".

http://www.theforeigner-japan.com/archives/200404/sojapanese.php?comm_page=2

:-P

Carol disse...

Que bom saber que não sou só eu que fico perdida com os kanjis!!!
De longe é o mais difícil. Claro que depois que vc realmente aprende um determinado kanji fica mais fácil compreender, mas até lá é empacar toda vez que aparece um desconhecido ou um que vc já viu mas não lembra direito...^^

Vini disse...

Portugues também tem umas "armadilhas" na leitura:
exemplos:
Casa (Lê-se caza e não cassa)
mel (Lê-se mél, mas não tem o acento)
também (Lê-se tambêm e não também)
exonerar (Lê-se ezonerar e não echonerar)

por aí vai.
Da mesma forma que temos que aprender irragularidades nas leituras quem aprende portugues tambem.

katosan disse...

Olá, gostaria de fazer uma parceria de divulgação com este site.
http://katokanji.blogspot.com
Somos um site de kanji para inciantes e ensinamos passo a passo com fixação.
Agradeço.