segunda-feira, 1 de março de 2010

Aspecto culltural - 『呼び捨て』

Hoje gostaria de falar sobre uma palavra que diz muito sobre a cultura japonesa:


(よ)び捨(す)


Mas por que é assim tão relevante? Bom, vejamos por partes.

A palavra é uma combinação dos verbos 呼ぶ, /yo.'bu/, 呼びます, "chamar", e 捨てる, /su.te.'ru/, 捨てます, "descartar, jogar fora".

Estes dois verbos, que à primeira vista parecem não ter relação, na verdade designam uma das piores ofensas na rígida cultura japonesa, tanto entre os conservadores quanto os mais modernos.

O que pode ser tão grave assim?

Quem já assitiu à épica animação AKIRA (cuja versão em quadrinhos é ainda melhor), deve se lembrar dos berros "KANEDAAAAA!!!", "YAMAGATAAAA!!!", "TETSUOOOOO!!!".

Pra quem nunca viu (e que deve ver), deixo o trailer do blu-ray, lançado no ano passado:



Calma, não mudei de assunto do nada, não estou ficando louco.

呼び捨てé exatamente isso: chamar alguém apenas pelo nome, sem nenhum pronome de tratamento.

No caso de Akira, como eles eram todos amigos que pertenciam a uma gangue, nada mais natural que tratar um ao outro daquela maneira, mas dependendo da situação, isto pode ser extremamente constrangedor no Japão.

Como todos devem saber, no país do sol nascente, a hierarquia social sempre foi - e com certeza continuará sendo - muito, muito rígida. Dentro desse sistema, foi criada uma regra sobre quem deve tratar quem de qual jeito, quem não pode tratar quem de tal outro jeito etc.

O mais básico é:


"Sempre trate os mais velhos com, no mínimo, さん"


Isso deve evitar situações embaraçosas na maioria das vezes. Digo maioria, não todas, e com "mais velhos", quero dizer "mais velhos", o que inclui mesmo quem seja apenas um ano mais velho que você.

Isso, até onde eu sei, começa no ginásio, que corresponde à 7ª série do fundamental daqui. A partir daí, passa a existir a relação veterano-calouro, 先輩(せんぱい)- 後輩(こうはい), que é praticamente chefe-subalterno.

Especificamente no ginásio, que frequentei até o último ano, a regra é chamar o 先輩 pela forma "nome + 先輩" como tratamento. Ou seja, a partir do segundo ano, eu era Ueda-senpai. Já no sentido inverso, ou seja, o 先輩 chamando pelo 後輩, era só pelo nome mesmo, ou seja, 『呼び捨て』 passava a ser a regra; não existe "nome + 後輩". O que poderia existir era "nome + (くん)", mas não que fosse comum.

Aliás, acho que essa regra vale desde o ginásio à faculdade, e em demais locais em que exista uma hierarquia similar, como em órgãos militares, academias de artes marciais etc.

Em relação aos professores, já era diferente. Com os pupilos, usavam 『(くん)』 para os alunos e『さん』 para as alunas. Isto quando estavam de bom humor ou quando era uma situação formal, pois caso contrário, poderia ser 『呼び捨て』 também.

Ah sim, vale lembrar que, lá, a profissão professor é bastante respeitada, e prova disso é que, por mais jovem que ele(a) seja, sempre é tratado(a) pelos alunos com "nome + 先生(せんせい)", e nunca com 『さん』. Por isso que falei que a regra de colocar 『さん』 nos mais velhos nem sempre funciona!


Mas saindo um pouco do campo da educação, em uma empresa também é um pouco diferente. Nunca cheguei a trabalhar lá, mas o básico prevalece: o funcionário hierarquicamente mais alto chama os subalternos com 『呼び捨て』 mesmo ou, em raras ocasiões (imagino), com 『』. Isso entre os homens, pois com as mulheres (e entre elas também) quase sempre é usado 『さん』, até onde sei.

Já o inverso, parece ser meio delicado: se for da mesma hierarquia, porém mais velho, cabe o 『さん』; se for de uma hierarquia superior, aí cabe o nome seguido pelo próprio cargo: 山田(やまだ)部長(ぶちょう), por exemplo, ou mesmo só o cargo.

Que complexidade, não? Mas o curioso é que isso é algo tão enraizado na cultura que parece que ninguém precisa se esforçar para se encaixar.


Ah, só mais uma coisa: em você mesmo, NUNCA coloque qualquer tipo de tratamento. Jamais diga algo do tipo:


『わたしの名前(なまえ)はマリオ・オリベイラさんです。』


Isso equivale a dizer:


"Meu nome é senhor Mario Oliveira."


, o que é certamente muito arrogante, não? No Japão é pior ainda, pois prevalece a "lógica" que, por mais importante que você seja cultural, profissional ou socialmente, perante os outros você é um cidadão qualquer, portanto mantenha a humildade.

Digo isso porque certa vez, quando cursava a quinta série do primário, referi a mim mesmo como 上田君, e fui alvo de zombação! Tadinho de mim, não têm dó? :P

Bom, já ficou longo o post, mas espero ter conseguido passar um pouco da importância dos pronomes de tratamento (sei que não comentei sobre todos, senão viraria um livro), e por que é fundamental tomar cuidado com o tal do 呼び捨て.

2 comentários:

Rafaela Gimenes disse...

Brigada. Entendi. :)

Akira disse...

Lá na Suzuki, em Toyokawa-shi, tratavam-nos (os brasileiros) simplesmente por -san, acredito que seja pelo fato de que eles talvez desconheçam quais as formas de tratamento que usamos aqui. Na Ace Bakery (um pan-ya), em Yokohama-shi, o tratamento era o mesmo. Eventualmente utilizávamos do cargo como tratamento aos nossos empregadores, na maioria das vezes os tratávamos por -san. A exceção ficava por conta daqueles que possuiam cargos mais altos, sem preconceito, mas para demonstrar respeito.